domingo, 19 de junho de 2016


Larisa Shepitko
(1938-1979)


Oiço o teu nome
como se adivinhasse donde vinhas
na ascensão da neve
e da gelada morte da inocência-

tivesse eu o teu olhar
e diria que sofremos em vão
nas florestas perdidas da guerra-

soubera eu cantar como orfeu
e deteria o tempo os carros
qual polícia sinaleiro da vida
e prestar-te-ia os primeiros socorros
com música jamais ouvida

mas nada mais sou que pobre espectador
e nada mais oiço na minha voz nas minhas palavras
senão o sudário silencioso da tua ausência

no ecrã da minha alma
imagens alvas procuram o teu olhar
como filme que não irás realizar-

também tu perdeste uma ilha
uma casa um passado
adeus matiora adeus larisa

a morte é filha bastarda da vida
e nos bastardos criminosos
encontra seus irmãos
os que enforcam sem remissão.

2015, José


music
Psalm of repentance III - Alfred Schnittke
https://youtu.be/3xPfEw3xx20
Sonho assim os dias
de te ver nas cores breves do verão
na leveza do tecido de chita
que desnuda os corpos como frutos maduros-

esta é a Rússia que amo
de mulheres sólidas
de mulheres descalças
que transportam toda a terra
na força infinita dos ombros
e sabem cantar os rios
e sabem sachar o futuro.

2016,



Quadro, Konstantin Yuon,  o que me lembram os ancinhos!



Música
Paul Juon e Konstantin Juon eram irmãos
Paul Juon: Litaniae Tondichtung, op.70
https://youtu.be/JLI1skMc4EU

sábado, 16 de maio de 2015


 Como a música nos vem, assim num mar de nós próprios, num oceano profundo de não nos sabermos. E toma de nós, tudo, a respiração, o tempo, a vida. Quase que pára o coração numa estranha embolia vital.

                                         


Lena Herzog, panoramas

outros são agora os dias
esqueletos de sonhos afundados
não do que sentia do que via
nem da mão que acaricia

tão só o imenso pó
que na casa desabitada crescia

2015, j

Rachmaninov - Trio élégiaque n°2 op.9 - Kogan / Luzanov / Svetlanov
https://youtu.be/UC-jip4cJCs

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Pode a vida voltar incólume ao berço donde saiu? Pode a vida abrir remanescer, renascer no seu próprio desvanecer-se?
Pode a vida abrir em cada instante mais do que nela se perde?

Andrey Remnjov

música
Beautiful and Pensive Gusli Solo
https://youtu.be/6v_ktzgIitY

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Tale Of Tales Part I







In painting “everything is on the degree
of disappearance of reality and the return to it.”
Yuri Norshtein

As palavras arrasam
                                os últimos olhares
                                algares sombrios 

no polegar há uma curva de dor
e o poder de quem enforca

nada resta senão a estranha 
gadanha das sombras no rosto


2015


Andrey Volkov,  Avaria, 1978

terça-feira, 10 de março de 2015

Abro feridas por todo o corpo.
Insanidade de viver contra si mesmo, de anavalhar a vida, como se fosse um animal selvagem.
Quero partir e levar nada dentro de mim. Nem o simples olhar que em ti recolhi!
Ser mendigo que adivinha na esmola a razão mortal de nada receber.
Quero ter nas veias o inferno
o brutal aluímento dos teus dedos!







Konstantin Istomin








Alexander Vertinsky